DESAFIOS DO TURISMO LATINO-AMERICANO: PERSPECTIVAS DE DESENVOLVIMENTO E CONTRADIÇÕES SOCIOESPACIAIS
CHALLENGES OF LATIN AMERICAN TOURISM: DEVELOPMENT PERSPECTIVES AND SOCIO-SPATIAL CONTRADICTIONS
Abstract
Esta edição especial, dedicada ao Turismo na Costa de Oaxaca, México, presenteia a Revista Turismo Estudos e Práticas (RTEP/GEPLAT/UERN) com mais um volume internacional, estreitando laços acadêmicos com pesquisadores latino-americanos e abrindo perspectivas para se pensar o turismo em nosso continente americano a partir de monografias empíricas e reflexões teóricas para além do pensamento econômico-gerencial. Prezando, portanto, pela pluralidade epistemológica e pela liberdade e criatividade na perspectivização crítica de objetos analíticos emergentes e enquadres compreensivos disruptivos, a coletânea de textos que segue apresenta ao leitor o desafio de repensar o Turismo na interface ampla de Sociedade, Cultura, Espaço, Natureza, Urbano, Trabalho, Tecnologia e Tradição. Cabe enfatizar, com efeito, que Turismo na Costa de Oaxaca, México buscou provocar mais fertilizações e cruzamentos de ideias do que conclusões e encerramentos de debates.
Assim, no presente Volume 14, Número 2 (2025), organizado pelo professor Dr. José María Filgueiras Nodar, do Instituto de Investigación de Turismo da Universidad del Mar (campus Huatulco), brinda-se o leitor com uma coletânea de textos críticos sobre o turismo no limiar de um século XXI já em avançada consolidação, de modo que esses argumentos empírica e teórico-metodologicamente embasados se mostram ávidos por problematizar a atividade turística como recurso para o desenvolvimento socioespacial, por um lado; mas que tem demonstrado, por outro lado, uma série de contradições estruturais que limitam sua capacidade desenvolvimentista de outrora, isto é, das últimas cinco décadas de derrocada do pensamento linear, gerencial e prognosticador de tendências.
Esta edição, com o fito de atualizar uma ampla leitura da teorização sobre as atividades turísticas e seus impactos na construção do mundo social, tem o mérito de trazer um diálogo ativo com o pensamento latino-americano do turismo, principalmente autores mexicanos, mas sobretudo com fortes marcas da geografia crítica brasileira, notadamente marcada por nomes consagrados como o de Milton Santos, Rogério Haesbaert, Roberto Lobato Correa e Ana Fani Carlos. Autores estes que promovem uma ponte analítica entre o século XX com seus espaços da grande fábrica e da megalópole proletária e o século XXI do capitalismo global financeirizado com seus espaços virtualizados de cidades digitais hiperconectadas por redes de consumidores de bytes e trabalhadores plataformizados.
Em termos temáticos, esta edição ainda revela problemáticas emergentes e urgentes para os estudos turísticos, tais como a preocupação com perspectivas neocolonialistas nos destinos turistificados para massas de consumidores de vitrines, parques e fachadas para a celebração imagética em redes sociais; o trabalho precário nos bastidores e nos palcos de serviços de satisfação lúdico-pueril do turista; o cotidiano de rua e de institucionalização quase militarizada de migrantes à deriva do turismo e em situação de vulnerabilidade; a especulação imobiliária e a gentrificação remodelando espaços urbanos para a expansão e reprodução sociometabólica do Capital; além da problematização de impactos socioambientais sobre os ecossistemas locais e sobre as comunidades tradicionais a partir de processos neoextrativistas.
O artigo de abertura deste dossiê – que neste prefácio dedicamos maior atenção – intitulado DEZOITO ANOS DE CHEIROS NO DESTINO TURÍSTICO BAHÍAS DE HUATULCO (OAXACA, MÉXICO): UMA AUTOETNOGRAFIA QUE APONTA PARA A ÉTICA, de autoria do professor José María Filgueiras Nodar, traz uma importante discussão sobre o olfato como marcador de experiência humana e sua relação com a memória, sendo uma parte de nossa identidade. Para tanto, o estudo explora o que se passa com a paisagem olfativa do destino turístico Bahías de Huatulco, em Oaxaca.
A partir de um relato pessoal de experiência, colocado metodologicamente como uma autoetnografia em que o autor relata viver há 18 anos no local, o professor Filgueiras Nodar explora essa possibilidade de memória olfativa desde os espaços naturais até os espaços com mais presença humana, tais como: os locais mais turistificados, os locais em que se encontram de maneira indistinta turistas e residentes, e aqueles espaços onde praticamente só vivem os residentes. Importa ressaltar o papel da memória coletiva na construção de uma identidade tanto social quanto territorial, que atualiza o passado presentificado em hábitos, lembranças, saberes e formas de fazer. Passado presentificado este que expressa no simbólico, no imaginário, no relacional, no discursivo e na materialidade da vida coletiva em uma territorialidade específica vivências ainda efervescentes.
O estudo do Dr. Filgueiras Nodar, nesse sentido, cita odores tanto agradáveis quanto desagradáveis que surgem da atividade humana, revelando as contradições entre os espaços turísticos e os não-turísticos. O texto conclui dizendo que está interessado especialmente na ética do turismo, focada na questão de se os impactos negativos do turismo se refletem também no terreno olfativo. Na presente autoetnografia, o autor diz ter encontrado evidências suficientes para avançar uma resposta hipoteticamente positiva a tal questão. Por um lado, o texto pensa na interferência humana nos espaços naturais e áreas verdes, citando o exemplo dos quadriciclos. Por outra parte, também aborda os impactos sociais e culturais do turismo, como a gentrificação e a criação de bolhas olfativas exclusivas para os turistas (espaços higienizados, inodoros, padronizados para a experiência turistificada), ainda mais quando muitos trabalhadores dos hotéis e residentes locais em geral vivem em lugares com presença habitual de maus cheiros.
O Segundo artigo, intitulado O MEGAPROJETO TURÍSTICO DO CENTRO INTEGRALMENTE PLANEJADO BAHÍAS DE HUATULCO, OAXACA: CONFLITO SOCIOAMBIENTAL, de Mayra Manuel Aragón, mostra como Megaprojetos de turismo no México fomentaram a acumulação de capital por meio de processos (neo)extrativistas, contribuindo para a mercantilização da natureza e da humanidade. Temos, nesse estudo, uma potente reflexão sobre a falência dos paradigmas conservacionista e preservacionista enquanto crítica ao avanço selvagem do Capital, bem como a ênfase da premente necessidade de superação, pelas sociedades complexas, da concepção utilitarista da natureza como recurso inesgotável, ainda que pelo recurso tecnológico da reciclabilidade, do consumo consciente e da inovação de cadeias operatórias no âmbito da produção industrial e de serviços. O megaprojeto turístico discutido na chave analítica do planejamento desenvolvimentista, com efeito, aponta para a captura da natureza como semióforo socio-ecológico a ser mercadologizado, patrimonializado, e, enfim, turistificado, isto é, reafirma-se a noção moderna de natureza como exterior ao humano, mas que pode ser socializada como recurso sociocultural e econômico.
Em seguida, o terceiro texto, de Jorge Luis Hernández Aragón, com o título OBSERVAÇÃO DE BALEIAS COMO ATIVIDADE TURÍSTICA NA COSTA DE OAXACA, MÉXICO. IMPACTOS SOCIOECONÔMICOS E SOCIOAMBIENTAIS, demonstra que o turismo, de oferta diversificada, traz benefícios como geração de empregos e a conscientização ambiental, mas que, no caso do estudo, foram identificados efeitos negativos, como o assédio a baleias, colisões e poluição sonora, associados à falta de conhecimento sobre as melhores práticas. A discussão de Aragón aponta para o turismo como espetáculo e licença pueril do real, o que se apresenta deveras angustiante quando irônica, mas talvez ingenuamente, recorre ao rótulo comercial politicamente correto da educação e conscientização ambiental. Temos, no argumento crítico do texto, o quanto o turismo tem também recorrido a uma noção de natureza enquanto ciclo vital cósmico dissociado do humano e, portanto, revelador da perfeição da criação; mas, contudo, que pode ser modernamente apropriada para fins socioeconômicos.
Norma Edith Gopar Cruz abre o quarto artigo com o texto CONFIGURAÇÃO TERRITORIAL E TRANSFORMAÇÃO DA PAISAGEM EM SAN JOSÉ MANIALTEPEC, TUTUTEPEC, JUQUILA, OAXACA. A autora discute a construção social e a reconfiguração territorial de San José Manialtepec, uma comunidade localizada na costa de Oaxaca, mostrando como a configuração territorial local reflete uma história de organização comunitária e apropriação do espaço através do sistema socio-ecológico-territorial de usos e costumes, mas enfatiza que as estruturas comunitárias estão a enfrentar mudanças resultantes do crescimento do turismo, promovido por interesses externos e endossado pelas autoridades locais. A discussão de Cruz tem se tornado recorrente na atual literatura sobre o impacto amplo do turismo em comunidades tradicionais, uma vez que apontam para as transformações causadas pela monetarização das trocas materiais e simbólicas, para a mercadologização dos valores e saberes tradicionais outrora configurados em relações de dádiva, compadrio e parentesco. A turistificação das comunidades tradicionais, com efeito, tem recorrido a processos de patrimonialização da memória e da cultura, bem como de profissionalização da juventude para o comércio turístico, o que, não raras vezes, insere o imaginário coletivo na alienação capitalista do consumismo. O afastamento das autoridades locais em relação à comunidade e ao território, nesse sentido, demonstra o quanto a presença de estrangeiros em atividades turísticas pode desestabilizar o cotidiano comunitário.
Prosseguindo, o quinto escrito, REFLEXÕES SOBRE MIGRAÇÃO E TURISMO EN BAHÍAS DE HUATULCO, de Linda Mayell e Mario Alberto Gómez-Rivera, revela a relação estreita entre turismo e migração no destino turístico de Bahías de Huatulco, Oaxaca, analisando como as agências governamentais têm uma relação de poder sobre os migrantes que vivem em profunda vulnerabilidade e imposição de condutas. O estudo salienta a ironia de Huatulco como “destino”: para o turista, é um fim em si mesmo, um lugar de chegada para o descanso; para o migrante em trânsito, é apenas uma escala numa árdua viagem para o norte, um não-lugar de espera e incerteza. A discussão de Mayell e de Gómez-Rivera sobre a crise migratória que tangencia as atividades turísticas se inscreve em um contexto macroestrutural mais amplo de crise societária generalizada em nível global, que perpassa, entre outros, a crise econômica mundial de 2008 e a pandemia do Novo Coronavírus de 2020 a 2022, o que provocou o deslocamento de massas humanas que abarcam milhões de indivíduos desplazados de sua autoctonia cultural, territorial, linguística e, consequentemente, subjetiva e moral-emotiva. Na América do Sul, destacamos a vivência desse destino anonimizado por parte de colombianos, venezuelanos, guianenses, haitianos e dúzias de povos originários arbitrariamente cindidos pelo dispositivo moderno da fronteira entre Estados-Nação soberanos, mas falhos em promover a cidadania em mínimos toleráveis de Segurança, Alimentação, Moradia, Saúde e Educação, restando ao migrante, refugiado e deslocado, a decisão entre a vulnerabilidade da mobilidade e as ameaças existenciais da permanência em território perigoso e violento.
O sexto texto, MEU PRIMEIRO EMPREGO: EXPERIÊNCIAS DE TRABALHO DE JOVENS EM HUATULCO, escrito por Jorge Alberto Meneses Cárdenas, descreve as experiências de trabalho dos jovens que vivem em Huatulco, ligadas à tecnologia e a outras condições de vida numa área turística, revelando que os trabalhos atípicos geram múltiplas experiências que apontam para cenários de incerteza e insegurança laboral, embora também sejam evidentes estratégias de resistência. Esta discussão traz à tona questões como o trabalho emocional e o sequestro da subjetividade, pois que bastante presentes no cotidiano laboral de jovens empregados na indústria turística. Indústria esta que tem se valido de estratégias criativas de exploração da força do trabalho, tais como: baixos salários, comissões associadas a metas, trabalho em horário extra expediente, monitoramento subjetivo e objetivo do trabalho, sequestro da subjetividade, precarização das condições de trabalho, engolfamento emocional no grupo, subalternização e ofensa moral, envergonhamento diante das exigências da empresa, humilhação, invasão de tempos e espaços íntimos e da Casa pela lógica instrumental do Capital, e, não menos importante, sedução da subjetividade do trabalhador para os interesses da empresa. Temos, portanto, uma discussão atual e urgente em tempos de hegemonia global do neoliberalismo como ideologia de gestão da reprodução e expansão do Capital.
Ariana Eleuterio López, Edgar Talledos Sánchez e Rosalía Camacho Lomelí escrevem o sétimo artigo do dossiê. Em REORGANIZAÇÃO TERRITORIAL NA COSTA DE OAXACA: TURISMO E URBANIZAÇÃO, abordam o caso da Costa de Oaxaca, uma das regiões do México que foi transformada pelo desenvolvimento das atividades turísticas nas últimas três décadas, onde a desapropriação de terras e o desmatamento generalizado têm sido pedras angulares para o estabelecimento e desenvolvimento do turismo. A discussão deste texto remete, uma vez mais, a apropriação da sociedade e da natureza como recursos econômicos, ora socializando a natureza para o mercado, ora objetificando a sociedade para os interesses do Capital.
Este dossiê traz ainda uma entrevista com a professora EVA GARCÍA PÉREZ – da Universidad Politécnica de Madrid, Departamento de Urbanismo y Ordenación del Territorio –, intitulada GENTRIFICAÇÃO E TURISTIFICAÇÃO COMO PROCESSO DE EXPANSÃO DO CAPITAL NA CIUDAD CAPITALISTA CONTEMPORÁNEA. A entrevista foi realizada por Rosalía Camacho Lomelí, que enfatiza como os processos de aburguesamento de resíduos socioespaciais urbanos estão atrelados a uma lógica não somente ético-estética de revitalização das cidades, mas sobretudo de colonização do urbano pela turistificação, aí situando de forma crítica os recentes processos de patrimonialização pelo (ab)uso da memória coletiva.
O presente dossiê traz também uma tradução do artigo A IMPOSIÇÃO DE UM ESPAÇO: DE SANTA CRUZ A BAHÍAS DE HUATULCO, do professor Edgar Talledos Sánchez, discutindo como foi produzido o atual espaço do Centro Integralmente Planeado Bahías de Huatulco (CIP Huatulco), cuja implementação e desenvolvimento transformaram os povos e centros rurais do município de Santa María Huatulco. Sánchez discute como a produção socioespacial está associada de forma complexa a reorganização ecossistêmica de um território, o que implica em transformações cosmográficas dos povos que ali habitam, alterando dinâmicas econômicas e políticas. Este artigo foi originalmente publicado em espanhol na Revista Mexicana de Ciencias Políticas y Sociales, em 2012.
A edição se encerra com a publicação de duas resenhas, excelentes notas críticas de leituras de duas obras relevantes para os estudos críticos em turismo. A primeira resenha, sobre o livro VENDER UNA CIUDAD: GENTRIFICACIÓN Y TURISTIFICACIÓN EN LOS CENTROS HISTÓRICOS, de Ibán Díaz Parra, foi escrita por Fanny Antonia Cortes Matías e aborda como o urbanismo neoliberal prioriza o mercado, desregulamentando o solo e o crédito e reduzindo a moradia pública estatal, legitimando a lógica capitalista nas cidades. É colocado que essa busca por rentabilidade usa a cultura urbana para atrair investimentos e turismo. As políticas de revitalização causam gentrificação e turistificação, deslocando trabalhadores e privilegiando ricos. Logo, o turismo de massa transforma o centro histórico em uma mercadoria consumível, aumentando a alienação dos moradores locais.
A segunda resenha é da obra ¿TURISMO ECOCIDA O TURISMO ECOLÓGICO? EL ECOTURISMO: IMPACTOS Y POSIBILIDADES DE GESTIÓN, de Filgueiras Nodar, Manuel Aragón, Gómez Rojo e Jiménez Baños. A excelente resenha, escrita por José Ricardo Robledo Carmona, destaca que já o título “Turismo ecocida” é provocador, questionando se o ecoturismo falha em seus preceitos. O volume critica o ecoturismo sob diferentes dimensões (culturais, ecológicas, sociais), expondo sua polissemia e incapacidade de resolver os problemas do turismo de massa. A obra analisa os impactos negativos do turismo em ecossistemas e comunidades locais, promovidos por grandes cadeias e governos. Conclui-se que o livro abre novas possibilidades para se compreender e gerir o ecoturismo de forma responsável, buscando alternativas a um desenvolvimento insustentável.
Concluímos afirmando que esta edição, sumamente crítica e atual, aborda temas de vital importância para o turismo. Traz uma narrativa a favor de práticas socialmente justas, não deixando de debater as desigualdades sociais e os desequilíbrios socio-ecológico-territoriais criados estruturalmente no e pelo turismo.